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Graças a Deus

Faminta, sem jantar nem desjejum, Maria comprou duas coxinhas. Não havia mercado perto do hospital. A bodega abriu quase ao meio-dia, atraindo um amontoado de gente que em poucos minutos esgotou o estoque de bolo e salgado.
A freguesia logo se dispersou com a chegada da viatura da polícia. Bodega fechada sob intimação.
Esfregando nas calças as mãos ensebadas de óleo, Maria foi disputar uma fração da sombra de uma castanhola na Praça Antiga. Já não restava álcool em gel disponível e o distanciamento social era impraticável.
Maldito Colares, praguejou ela. Eduardo Colares, seu patrão, adorava organizar festas na mansão. Desprezava as regras de isolamento no decorrer da pandemia. Na última farra, enquanto servia os convidados, Maria foi agarrada por um jovem vereador. Bêbado e risonho, removeu a máscara dela.
— Além de cheirosa, a preta até que é bonitinha!
A bandeja escorregou. Estilhaços de garrafa e copos dispersos no mármore. Ignorando as lágrimas, o patrão a censurou. O prejuízo seria descontado da diária.
Uma semana depois, Colares e mais cinco convidados apresentaram sintomas suspeitos. Maria nada sentiu, mas ficou inquieta com a situação de Isaías, seu pai, com quem dividia uma vivenda de três cômodos. Diabético e hipertenso, começou a sofrer com falta de ar.
Internado, Isaías precisava de um respirador. Do lado de fora, a filha aguardava notícias. Faltou ao trabalho.
Três dias de vigília. Após o lanche e um cochilo, procurou a enfermeira de plantão. Palavras penosas. Maria das Graças jamais veria o pai novamente, sem chances de despedida.
Na tevê da recepção, a jornalista entrevistava o senador Colares. A máscara ocultava o falso sorriso.
— Foi só um mal-estar. Já estou muito bem, graças a Deus.