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Café e Tapioca

No princípio da noite, após a maçante aula de Semiótica, Pedro voou até a Cafeteria Realejo. A chuva forte, a ventania, as ruas escuras e desertas, nada o desestimulou. Chegou ensopado, ofegante, os óculos de grau embaçados, os livros bem preservados na surrada maleta de couro. Escolheu a mesa de sempre — a mais próxima do balcão.
Pedro era um moço sonhador, prezava programas românticos e lugares serenos. Seus colegas debochavam, caçavam diversão em bares e boates, patrocinavam a agitação juvenil, censuravam o sossego dos caretas. Ele não fazia caso, continuava a recusar convites para festas, deleitava-se com seu modo de vida pacato.
Aos seus olhos, a Cafeteria Realejo era o estabelecimento ideal, cada elemento o inspirava: a meia-luz, o aroma do café, o som do blues, as mesas de pinho, os versos nas paredes e Leila, a garçonete, razão suprema de sua alegria. A mulher era uma deusa angolana com 1,70 metro de altura, proporções sedutoras e intimidantes, beiços carnosos, cintura delgada, seios exuberantes, coxas grossas, rígidas como as de uma leoa. Diante dela, Pedro, o manso Pedro, sentia a alma fervilhar com as fantasias mais ariscas.
— O que deseja? — perguntou ela com seu sotaque inconfundível.
“Você coberta de calda”, respondeu em pensamento.
— Um café sem açúcar e uma tapioca com queijo, por favor.
O pedido não mudava; Leila mesmo assim anotava em seu bloquinho, entortando a boca. Há meses ambos seguiam um roteiro, ações e falas repetidas, um contínuo déjà vu.
Quando a viu se afastar, Pedro retirou do malote Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez. Ao examinar, pareceu-lhe o título um mau agouro. Pôs-se a fingir que lia o livro. Não tirava os olhos dela, disfarçava mal, nem ao menos fechava a boca enquanto a acompanhava saracoteando.
Apaixonado, Pedro devaneava dormindo e desperto. As músicas românticas, as flores, o canto dos pássaros, o mar, a brisa matinal, tudo o rapaz associava à Leila, ao idealizado romance dos dois. Estimava inclusive os contrastes: preto e branco, café e tapioca, ela e ele. Desejava ardentemente mergulhar seu corpo alvo naquele mar negro impetuoso. Na presença dela, porém, não declarava coisa alguma, transbordando insegurança, agitando as pernas, projetando sem sair do lugar. Tencionava iniciar uma conversa, chamá-la para sair, ousar com uma piada, fazê-la rir, expondo a ele aqueles dentes brancos, brilhantes e perfeitos.
Mastigou a tapioca devagar, tomou o café frio, sem sucesso na busca de retardar o tempo. Estudou Damião, o cativante barman, um tipo moreno, musculoso, expansivo, com jeitão cafajeste. Sentiu inveja do sujeito, seu porte atlético, sua desenvoltura. Achava-se magricela, desajeitado. Precisava ser forte para domar um mulherão feito Leila.
Uma hora depois, Pedro acenou timidamente, solicitando a conta, cujo valor sabia de cor. Passou quantia maior, só para fazer sua musa de ébano voltar para pegar o troco, vê-la mais uma vez balançando as ancas imponentes.
Notando-a voltar, não teve coragem para fitar os olhos dela. Simulava procurar algo na maleta quando a escutou.
— Obrigada. Tenha uma boa noite — disse ela lhe entregando poucas moedas.
— Boa noite.
Saiu do lugar enfraquecido, censurando a si mesmo em silêncio, inconformado com sua covardia. Poderia ter perguntado se ela estaria livre após o turno, dialogado acerca das danças populares angolanas, comentado sobre o tempo chuvoso. Via partir outra oportunidade que Deus oferecia. Precisava conversar com tio Sabino.
Sabino era o irmão mais velho da mãe de Pedro. Era padre. Ministrava uma das Igrejas dos Anjos Padroeiros, humilde templo no Jardim das Oliveiras. Calvo, baixo, roliço, risonho, tinha uma aparência burlesca. Bem-querido pelos fiéis.
Pedro levantou cedo no dia seguinte, vestiu qualquer roupa, foi à igreja encontrar o parente presbítero. Levou alguns pães dormidos para comer no caminho. Tropeçou na escada da entrada, socorrido por uma freira de tímidas maneiras. Encontrou o padre no confessionário.
— Bênção, tio Bino — falou arquejante.
— Meu querido, há quanto tempo! Como vai a família?
A conversa desenrolou-se sem pressa. Pedro contou sua história de amor, ponto por ponto. Omitiu somente os sonhos libertinos.
— Se as intenções e os sentimentos são nobres, não existe pecado em querer essa jovem — concluiu Sabino.
— Mas coragem, que é bom...
— Pois não perca mais tempo. Sofrer por insegurança e temer a rejeição só provoca dor à alma. O Senhor proporciona ocasiões favoráveis e é nosso dever tirar proveito delas. Não de mão beijada: recompensas exigem sacrifícios!
Padre Sabino era grande orador.
— Nem sei por onde começar, meu tio.
— Sente em lugares diferentes, puxe assuntos comuns, conquiste a amizade dela aos poucos. O resto acontecerá naturalmente. Saia da mesmice, filho!
Pedro partiu otimista. Passou a tarde na cama, cochilando, para que a noite chegasse depressa. Tomou um banho demorado, elegeu o melhor vestuário, espalhou colônia no pescoço e saiu para pegar o ônibus. Faltou à aula de Estatísticas.
Céu nublado, sem chuva. A Cafeteria Realejo funcionava há apenas dez minutos. Pedro era o primeiro freguês. Acomodou-se à mesa central, ficou a estudar o cenário. Dispersas nas paredes, as caixas de som davam-lhe conselhos em forma de canção; Muddy Waters o confortava tocando You Can't Lose What You Never Had. Contente, o rapaz tamborilava com os dedos na mesa, acompanhando o gostoso ritmo da música.
Afinal avistou Leila, que saía da cozinha achando graça. Vinha cochichando divertida com Damião. Ele a encarava, todo atrevido. Ela inclinava a cabeça, escancarava-lhe o sorriso, deslizava os dedos no braço largo dele. Pedro divisou cada gesto.
Embaraçada ao perceber o solitário cliente, a garçonete ajeitou o vestido e encaminhou-se para atendê-lo.
— O que deseja? — perguntou segurando o bloco de notas.
— Um copo d’água, por favor.