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Bem-te-vi

— Bem-te-vi! — gorjeou o emplumado prisioneiro.
Zeca logo entrou na varanda a fim de estudar o passarinho, solitário na gaiola sobre a mesinha entre os jarros de ráfias.
Receoso de assustar, pôs-se a observar à distância. Sentia dó da criatura.
— Chegue cá, meu filho! — chamou Dona Leda na sala de estar. — Vai começar aquele desenho das capivaras astronautas que você tanto gosta.
— Quero tevê hoje não, mãezinha.
Agora a televisão não lhe importava. Finalmente numa casa ampla — antes vivia num conjugado —, queria assistir ao movimento da fauna miúda do florido jardim.
Longe das avenidas, prevalecia a paz. A rua adiante era curta, pavimentada com pedras, cheia de jambeiros, soins saltitantes e velhinhos proseadores. Até então restrito aos sons de buzinas, freios, sirenes e estrondos de colisões, Zeca enfim desfrutava das melodias da natureza.
— Posso ir brincar no jardim mais tarde, depois que o sol baixar?
— E a chuva de hoje cedo, menino? Aquilo lá tá um lamaçal!
— Ô exagero, mãe… Tava só serenando!
— Nem pense nisso, José!
O excesso de cuidado maternal o sufocava.
Era um rapazinho criativo, enérgico, entretanto dependia da cadeira de rodas. Faltavam-lhe as pernas, amputadas num tempo de memórias confusas. A deficiência não intimidava seus sonhos: Zeca tinha braços fortes, ambicionava tornar-se um homem vistoso, feito os super-heróis das histórias em quadrinhos que ele colecionava. Aprendera a ter paciência nas pescarias de domingo com o vovô Tião. Pouco se queixava.
Durante lentas horas, distraiu-se no quarto, solucionando quebra-cabeças, jogando damas contra si mesmo, desenhando e pintando cenários campestres nos cadernos de espiral.
Num dado momento, Dona Leda apareceu rente à porta. Anunciou que sairia para entregar uns bordados às clientes da vizinhança. Prazenteiro, ele acompanhou a mãe até o terraço e lhe acenou, desejoso de que Deus a protegesse. Quando ela sumiu, os olhos dele sorriram para o passarinho.
— Te-vi! Vi! Vi! — estridulou a ave diminuta.
Pousada a gaiola sobre as coxas truncadas, Zeca conduziu até o jardim.
Hesitou em libertar o bichinho. Pensou, temeroso, num possível temporal. Aprisionado, todavia, o pequenino jamais voltaria a experimentar o deleite do voo.
Mais uma vez, o garoto contemplou o esmero do ser: a coloração das penas, o bico longo e achatado, os olhos atentos.
Soltou. Testemunhou a sublime decolagem.
Satisfeito, retirou a camisa e se jogou no gramado. Tombamento indolor.
De bruços, arrastou-se com os braços, roçando os cotovelos na folhagem úmida, emporcalhando a bermuda. Cheirou as margaridas, tateou os lírios, acompanhou a fileira de formigas, espantou o calango bisbilhoteiro, coletou uma concha de caracol.
Deitado na relva, ele examinava as nuvens e a copa das árvores do terreno.
Avistou, num ramo, o pássaro de barriga amarela. Riu, triunfante.
— Bem-te-vi!